Pesquisadores mostram que inferência distribuída de IA em navegadores vaza dados genômicos sensíveis — e propõem defesa por computação codificada
Um estudo demonstra que rodar um modelo de IA genômica de 15 bilhões de parâmetros distribuído entre navegadores voluntários (via WebGPU) expõe as sequências de DNA processadas: um único worker malicioso consegue identificar o genoma de origem com 92% de acurácia a partir de apenas 300 tokens. Os autores propõem proteger as entradas dos especialistas do modelo com computação codificada de Lagrange, eliminando esse vazamento sem custo relevante de desempenho.
O trabalho parte de um cenário real de infraestrutura de IA: modelos de fundação genômica do tipo mixture-of-experts (MoE) estão ficando grandes demais para rodar em uma única máquina, e uma alternativa atraente é distribuir o processamento de cada 'especialista' entre navegadores de voluntários, evitando o envio do DNA para um datacenter centralizado. Um coordenador confiável cuida da atenção e do roteamento, enquanto cada worker executa apenas a rede feed-forward de um especialista via kernels WebGPU escritos à mão — mantendo desempenho equivalente ao de uma execução nativa local.
O problema de segurança aparece porque, na versão ingênua desse desenho, cada worker recebe o vetor de entrada em texto claro. Os pesquisadores mostram que isso não é privado na prática: um classificador simples recupera o token original a partir de um único vetor intermediário em qualquer profundidade da rede, e, de forma mais grave, um único worker malicioso consegue apontar de qual genoma-fonte vieram os dados com 92% de acurácia observando apenas 300 tokens desordenados — ou seja, mesmo sem saber a ordem das informações, um participante não confiável da rede consegue reidentificar de qual indivíduo ou amostra biológica o dado sensível se originou.
A defesa proposta usa computação codificada de Lagrange com valores reais: em vez de enviar a entrada em claro, cada worker recebe apenas uma parcela (share) mascarada com ruído gaussiano, calcula as operações lineares do especialista sobre essa parcela, e o coordenador só reconstrói o resultado combinando pelo menos duas de três parcelas distribuídas. Isso limita matematicamente quanta informação qualquer worker isolado pode inferir — os autores reportam que um atacante adaptativo treinado especificamente contra esse esquema cai ao nível de simplesmente chutar o token mais frequente, com o vazamento de informação por worker abaixo de 1 bit por passo de inferência.
O ponto que torna isso relevante além do nicho de genômica é o padrão de arquitetura: à medida que mais provedores exploram inferência distribuída ou 'crowdsourced' para modelos grandes (reduzindo custo de GPU terceirizando computação para dispositivos não confiáveis), o mesmo vetor de vazamento — reconstrução de dados de entrada a partir de ativações intermediárias enviadas em claro — se aplica a qualquer domínio com dados sensíveis, não só sequências de DNA. A contribuição prática do artigo é mostrar que a mitigação (codificação com compartilhamento de segredo) é viável sem perda de fidelidade dentro do ruído numérico já existente em BF16, o que reduz o argumento de que privacidade e desempenho seriam necessariamente incompatíveis nesse tipo de sistema.